terça-feira, outubro 03, 2006

Sed Non Satiata

"Sed Non Satiata

Ó bizarra deidade, escura como os lutos,

de perfume que junta almíscar mais havana,

obra de algum obi, o Fausto da Savana,

Sombria feiticeira, a dos negros minutos,

Eu prefiro ao Constance e ao Nuits, este remédio,

Elixir ou paixão, que de teus lábios mana;

Meus sonhos para ti partem em caravana,

Teus olhos são cisterna em que bebe o meu tédio.

Nos teus olhos tua alma encontra o desafôgo,

Ó Demônio cruel! Amortece o teu fogo;

Nove vezes não posso, como o Estige obscuro,

Abraçar-te, e não posso, ó hedionda libertina,

para quebrar-te o brio e pôr-te contra o muro,

no teu leito infernal tornar-me Proserpina!

Baudelaire”

Você entrou na sala como uma amazona. Alta, forte e imponente. Todas as cabeças viraram para acompanhar seus passos. Deusa negra, ébano inebriante. Quando a vi, jurei possuí-la. Um fogo tomou meu corpo e esqueci-me de toda mulher que já pisou a terra. Cila, me disseram ser seu nome, a que esfola corações por onde passa. Nunca alguém com tanta graça pudera ser a ruína de homens e mulheres. Num esforço por seu olhar, atravessei a sala e lhe falei. Num esforço por sua compaixão, cheguei e declarei. Sobre a luxúria, sexo ou amor, você escutou impassível.

O jeito de quem acostumou-se a tudo isso, a resposta de quem entende meu vício. Implorei por sua companhia, uma noite, toda minha. Ofereci o mundo em troca da sua pele. Ofereci a alma por um gemido. Você recusou educadamente, frase feita sem efeito. Procurei-te em outras noites. Rastejei-me em outros dias. Sob Sol ou Lua, sua pele brilha com lascívia. Decorei suas formas, os seios fartos, firmes. As curvas generosas, cabelos em cachos proibidos. Contudo, as pernas, guardiãs de meu tesouro! Meus olhos enfeitiçados subiam desde o tornozelo, pelas coxas torneadas até a mata, por mim, inexplorada.

A fome insaciável tornou-me fraco e a vida tornou-se escassa. Meu peito arfava, incapaz de segurar o espírito insone. Adoeci, chorei e, por fim, lhe avisei. Eu morreria sem sua atenção. Apenas um punhado, uma noite. Que aflição! Você veio, mas sem dó ou consideração. O desejo convenceu-te que eu seria uma distração. Hoje, sou mais um abandonado, incapaz de completar-me. Somos muitos que te clamam. Sua ausência é o resíduo de um vulcão. As felizardas que compartilham tua cama serão cascas amanhã.



Elis (meio emocionada, meio excitada)

5 comentários:

Unknown disse...

Bem... ISSO sim é que é escrever hehehe
Há quem não entenda isso =P

Tá ótimo Elis! Adorei mesmo! É sempre bom ler o que vc escreve

=**

PS: o Gineceu acabou de declarar um rompimento absoluto com as regras da moral androceutica e passa, agora, a traçar um caminho novo hehehehehe

Anônimo disse...

Uau!
Fazia tempo que não lia algo assim!
Parabéns, Elis! Maravilhoso!

Escreva mais, poste mais, vai!

É sempre bom ler o que você escreve! (concordando, e muito, com a Gi)

Beijos ginecêuticas, aquelas que não respeitam e não respeitarão as regras da moral androcêutica adotadas pelos membros do blog Androceu, um blog de família conservadora brasileira

Anônimo disse...

bom mesmo elis...

Anônimo disse...

"Sua ausência é o resíduo de um vulcão. As felizardas que compartilham tua cama serão cascas amanhã."

Muito bom, Elis. Vc tem uma sensibilidade enorme para dizer isso...

Elis disse...

Baudelaire me deixa louca. Imagina se eu resolvo reler as flores do mal...

beijos