Aqueles que não me conhecem podem pensar que eu sou anti-social.
E de fato estão certos. Mas,desde pequena, ficou clara a minha facilidade em lidar com pessoas mais velhas.Minha mãe nunca se importou, porque eu era mesmo uma criança estranha.
Chata e estranha.
Talvez ela pensasse que minha identificação com os idosos ocorria porque eu era rabugenta e cheia de manias .Na verdade ainda sou. Acho que serei assim até a minha morte trágica aos 37 anos (ainda não decidi se serei atropelada ou assassinada por um franco atirador atrás de alguma matéria que fiz ... devido à minha coordenação motora, a primeira opção é mais provável).
O fato é que eu tenho dificuldades para conversar com gente da minha idade, certamente eles me analisam e me acham meio excêntrica.Com os idosos não.Se me acham esquisita vão pensar que é coisa da
juventude de hoje. Conflito de gerações.
Minhas irmãs me chamam de “matadora de velhinhas” e minha mãe (a pessoa mais capaz de acabar com todas as minhas pretensões) diz que eu sou uma vítima em potencial para todos os golpes que simpáticas senhoras aplicam em pessoas retardadas , quero dizer , descuidadas.
Minha mãe , ela deve saber o que está falando.
Mas o que motivou este texto foi uma agradável tarde de quinta-feira na PUC.
Sempre vejo uma senhora sentada em um dos bancos ali na frente do prédio velho.Pensava que ela era uma ex-professora, ou algo assim.Ela estava sentada no banco ao meu lado dando pão para as pombas (animais fétidos, maldosos e muito, mas muito, perigosos) e eu, gansa, fui perguntar o que ela fazia sempre lá.
A senhora trabalha aqui ? Há ,há... não filhinha , eu moro nessa rua e, como por aqui não tem cinema , não tem nada pra fazer , eu sento aqui, chego de manhã , saio vinte para o meio dia , volto de tarde e vou embora seis horas.
... (leia-se : ahhhhhhhhhh , tá bom)
Fiquei um pouco desapontada. A realidade é sempre mais chata que as suposições, imaginei que ela fosse mais uma professora demitida pela Maora Tse Tung ( foi mal...) ,e que ela estava agora amargando as saudades de sua querida instituição.
Seu nome é Teresinha e ela é bem popular.Muitas pessoas que passavam, a cumprimentavam.Veio de Porto Alegre há dez anos morar com um sobrinho. Tem 78 anos e não casou ou teve filhos por opção.Mostrou-me as fotos que carrega em uma bolsinha.
As fotos a lembram de tudo que ela teve e já perdeu.A mocidade, a irmã , o pai , a mãe.
Pensei , nunca vou querer isso para mim, não ter nada e só viver o presente para lembrar o passado.
Vai ver nem é isso.A gente fantasia a vida dos outros e acredita.Falei:
Eu não guardo fotos.
Indignação e surpresa nos olhos dela.
Pooooooooor quê ? Não sei. Ah, mas eu guardo e assim eu lembro.
Irene ,uma personagem de um livro chamado
De amor e de sombra , de Isabel Allende, dizia que
as fotografias enganam o tempo, suspendendo-o em um pedaço de papel onde a alma fica opressa.
Acho que é mais ou menos isso que acontece comigo.
Mas esse fato ,eu não me permiti contar à Dona Teresinha.
Por uma nova ginecêutica (que ficou com pena da Paulinha em sua última postagem, caso contrário, só um milagre pra me fazer escrever ...).