Não vou dizer que odeio o natal, muito pelo contrário. Sempre fui uma grande entusiasta do natal. Não pelos presentes ou pelo caráter religioso, afinal não acredito em nada. Mas desde criança minha avó fazia uma grande festa de natal. Comidas maravilhosas e muita gente. Não só a família, mas amigos e conhecidos. A casa era aberta na noite de natal e o importante era rir e se divertir juntos. Comemorar amores e amizades. Vejo muita gente falando “devíamos dar valor a isso todos os dias”. Sim, mas comemorar todos os dias seria bem cansativo. Então natal é isso para mim. Uma grande comemoração de amigos e familiares. O dia em que celebramos o amor que temos todos os outros dias.
Alguns anos são mais difíceis que outros. O natal sempre é influenciado por como o ano correu. No ano em que minha avó morreu tivemos um natal triste. Não do tipo emo, ninguém ficou chorando pelos cantos. Mas foi só a família mais próxima, alguma comida e bebida e conversas calmas. Havia melancolia no ar e, ainda assim, foi um bom natal. Esse ano minha vida foi governada por murphy. Tudo que podia dar errado deu. Perdi uma pessoa importante, tivemos sérios problemas financeiros, dois carros roubados e a saúde de meu avô ficou bem ruim. Ninguém estava muito empolgado pelo natal. Mas não ignoramos a data. Decidimos fazer a ceia na casa de meu avô, ele não poderia se locomover. Antes passaríamos na casa de minha outra avó, que ainda de luto não queria comemorar o natal.
Na noite do dia 23, fiz uma lasagna e comemoramos um natal particular, só entre eu, minha mãe e pai. Foi maravilhoso. Comemos, tomamos um vinho e assistimos “Vamos dançar?” com Fred Astaire e Ginger Rogers. Parecia um bom começo. Após o filme, resolvi adiantar as coisas e fazer a carne para a ceia de meu avô (sem sal). Queimei a panela de pressão. Ok, cansaço. Melhor dormir e fazer tudo no dia 24 mesmo. Para começar, a receita do peru era em pedaços. Não se vende peru em pedaços. Alguém já manuseou um peru cru? Já tentou destrinchar o bicho? Nojo, nojo, nojo. Fede e acreditem, a Sadia não limpa todas as entranhas. Argh!!!! Uma vez destrinchado, um banho de limão para tirar o cheiro. Hora de começar a cozinhar. O conchiliogne não cabe na panela, o peru espira óleo pela cozinha, inferno, calor, droga de tempo. Respira Elis.
Vamos colocar o molho no peru e pô-lo para assar. Muito molho, ele ferve e começa a pingar no forno. Fumaça pela cozinha toda. Um berro, mamãe entra em desespero. A gordura do peru e o álcool do vinho do molho botam fogo no forno. Corre, desliga o gás. O forno continua pegando fogo por baixo. Minha mãe desesperada segura o choro. Pego a luva térmica e apago o fogo com as mãos. Mamis cai no choro. O peru devia assar por duas horas e o conchiliogne por meia hora e não podemos mais ligar o forno. Expulso-a da cozinha e tento consertar o problema. Está ficando tarde. Termino o peru. Não dá tempo mais de passar na minha avó. Corremos para nos arrumar, tirar o cheiro de peru, fogo, fumaça e vinho do corpo.
Estamos exaustos. No caminho só queremos voltar e ir para a cama. Dormir! Mas é natal. E isso resolve as coisas. O peru ficou horrível, mas os convidados gostaram. O conchiliogne foi um sucesso. Mousse, presentes, conversas, meu avô sorrindo depois de tudo que passou esse ano. Sim, eu comemorei o ano que termina, comemorei que não perdi os dois avôs, comemorei a minha família sempre unida não importa o inferno e comemorei sobreviver a tudo para vê-los sorrir.
Conheço o mundo, a merda que vida faz conosco, os problemas que enfrentamos todos os dias e até no dia de natal, mas escolho comemorar. Felicidade não existe, persegui-la te fará miserável. Temos que lembrar que realismo não é amargura. Então apenas comemore o que você tem. Amigos, família, pessoas. Todos são imperfeitos e te irritam durante o ano e ainda assim, eu os amo mais do que tudo. Isso é minha vida, as pessoas que fazem parte dela.
4 comentários:
haha que legal Elis!
queria que minha família fosse assim...
mas vc pode ler a minha visão otimista logo acima hahahahha
O grande objetivo dessas festas de fim de ano é unir as pessoas, o que é muito válido.
Elis, gostei muito do texto. Apesar dos problemas, a vida é assim mesmo, sempre nos pega de surpresa...
realmente, concordo com vc quando cv diz sobre reunir e comemorar os amigos, a família, etc...
Tb tive um ano meio "estranho"...problemas sérios de saúde com minha irmã....com minha avó...o segundo natal sem meu avô...etc...
mas ainda assim, há o que celebrar.
Assim como a felicidade plena não existe, a tristeza plena, creio eu, tb não existe.
a vida é muito complexa, isso sim.
belo texto , Elis.
Bom, eu amo minha família sim, mas bem que eles poderiam ser mais anomados.
Quando eu tiver minha casa vou fazer um natal de arrasar, com música e pessoas dançando, gritando, bebadas e alegres...
hehehe... Que loucura!
O jeito é viver, né, galera!!!
Vamos lá! E eu estou aqui para quem quiser ir comigo!
Beijos cheios de gordura
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