quinta-feira, agosto 09, 2007

Love is in the trash

Por Gi Montemurro
Há muito ouvia falar sobre eles, os loucos da rua, mas ainda não os tinha visto. A cada semana os velhinhos e velhinhas da Padre Carvalho observavam atentamente o casal, tentando capturar detalhes para enriquecer a história contada para os filhos e netos no domingo.
“— E como foi a semana vovó?”
“— Você não sabe o que aconteceu terça-feira! Já te falei dos catadores de papel? Então, foi a maior indecência...”
Não era diferente comigo, até sábado passado. Sentada no carrinho, ela mandava beijos cada vez que ele se afastava para revirar uma lixeira. Quando voltava com algo de valor, comemoravam com longos beijos; quando não, consolavam-se da mesma forma. Bastaram dois minutos de distância para a declaração: “Te amo mais que tudo, meu amor!”.
A cena foi um choque. Chocou-se, não com o meu moralismo, mas com a incoerência da descrição que durante tanto tempo ouvi todos os finais de semana. Qual a indecência do amor?
Muitos sobrevivem à impiedade da grande cidade refugiando-se no desamor (e não devem ser culpados por isso). Mas esses analistas/rotuladores do amor alheio poderiam aprender muito com aquele casal capaz de achar tanto amor em tanto lixo.

Nenhum comentário: