De Milly Lacombe
Tenho passado em revista alguns de meus conceitos. Em relação ao sentido da vida, aos amores, à mortalidade, à maternidade e, mais recentemente, em relação ao caju. Acho sinceramente que já esgotei minha cota de erros históricos em relação ao caju; é chegado o momento de crescer como pessoa, como mulher e como consumidora – de caju, uma fruta que sempre foi, por mim, esnobada. Como no dia em que, numa festa, recusei um suco feito de caju simplesmente porque, na bandeja ao lado, havia um suco de uma fruta concorrente, mas não menos ácida: o abacaxi. Sim. Eu sequer cogitei estender meu braço em direção ao copo com caju. Do alto de minha arrogância hortifrutigranjeira, ignorei o Caju. Melhor seria, como todos sabemos, que eu tivesse vociferado contra o caju: “Não quero esse troço! Isso é ácido e, sem açúcar, não tem gosto. Tira já o caju da minha frente!”. Hoje sei que era isso o que deveria ter feito. Porque todos entendem que é menos sofrido ser reconhecido e maltratado do que simplesmente ignorado. Até porque, tivesse eu soltado meus complexos para cima do Caju naquela noite, alguém certamente teria saído em defesa da saborosa fruta. Mas, com meu comportamento discriminatório, não dei a menor chance ao caju.E, porque a vida é cheia de coincidências estranhas, estava eu, no sábado à tarde, olhando pela janela da sala com uma xícara de café na mão, pensando a esse respeito, a respeito do caju e de meu comportamento em relação a ele, quando soube do almoço que faria parte do Programa Cozinha Brasil - e que seria presidido por nosso líder supremo. Quase tive um troço. Era mesmo verdade: o caju estava prestes a ser redescoberto. Em êxtase, dei um pulo, quase derrubei o conteúdo da xícara no chão, e pensei: finalmente, alguém se lembrou do caju!Olha só, o Programa é dos mais nobres: vai levar à população do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia (grandes produtores de caju) algumas informações sobre as diversas formas de preparo e os benefícios da fruta na dieta alimentar. Porque não vitamine você sua própria ignorância achando que Caju serve apenas para suco. Ou de achar que a fruta existe simplesmente por causa da castanha. Não senhor. Não senhora. Isso é conspiração da mídia tendenciosa, é intriga dazelite. O caju, você pode não saber, transcende seu status de fruta. Vejam só: Tem doce de caju, caju em calda, pastéis de forno de caju, fritada de caju, caju na moranga, caju ao molho branco, moqueca de caju, omelete de caju, salada de caju, pene com espinafre, aspargos e ... caju – e eu poderia preencher mais dez parágrafos desse jeito. Mas o que importa notar é que, nunca antes nesse país, uma administração dedicou a devida atenção ao caju. Isso é que vale.Para se ter uma idéia do tamanho do problema oportunamente detectado pelo governo federal, no dia em que nosso comandante falava a respeito do caju, havia quem estivesse mais interessado em prestar atenção no julgamento histórico dos 40 mensaleiros. E agora eu pergunto: fosse o almoço para promover o abacaxi ou o pepino estariam esses insensíveis ligados no que acontecia dentro da sala do STF? Arrisco um palpite: não! Não estariam. Não estariam! Acontece que, quando se fala em caju, há um muxoxo coletivo. Alguns fingem que não ouvem, outros desconversam, outros ainda encenam um falso interesse pela fruta. “Faz moqueca, é?”, perguntou uma amiga, de olho na TV Senado, que transmitia ao vivo o julgamento dos 40 mensaleiros, enquanto eu declamava a respeito do caju e de sua desconhecida versatilidade. “Faz!”, respondi, já ofendida pelo caju. E ela sequer me olhou ao lançar no ar, de forma ignóbil, o seu “Faz moqueca, é?”. Evidentemente, não estava interessada na resposta. Isso é para que se tenha uma idéia do preconceito que, há centenas de anos, vitima o caju.Mas, mais uma vez, nosso líder máximo tocou no ponto certo. E, durante o almoço, não deixou de lembrar que caju também fica uma delícia com vodka, especialmente no fim do dia. Além do mais, pediu que todos os parlamentares, e também a imprensa, ajudassem a divulgar o caju. "Os deputados poderiam convidar parceiros deputados para almoçar na sua casa e levar caju na entrada, na saída e de sobremesa para ajudar na propagação desse novo (sic) alimento". E, depois, sabiamente, pediu para "alguém servir a imprensa, para eles comerem e saírem falando bem do caju". Nosso chefe, em tarde inspirada, ainda informou que essa é, agora, mais (sic) uma bandeira do governo. "Vamos fazer do caju um debate nacional", sacramentou. Já não era sem tem tempo! Já não era sem tempo!Antes de deixar seu caju descansar, nosso sábio líder teve ainda o lampejo de raciocinar em voz alta: “Quem está com fome é preciso, primeiro, adquirir o hábito alimentar. E pode começar comendo um hambúrguer de caju, uma pizza de caju, uma carne de caju". Nessa hora, minha vontade era de ajoelhar e jogar os braços para cima, em reverência ao momento histórico para o país, para o povo, para as futuras gerações – para o caju, enfim. Todos sabemos que pensamentos como esse, que veio a nosso grão-mestre como uma epifania, não pipocam por aí todos os dias. Por isso é que a colocação emociona tanto. É evidente que, quem tem fome, precisa, antes de mais nada, adquirir o costume de se alimentar. É evidente. Como ninguém disse isso antes? Trata-se de mais uma dessas reflexões presidenciais que, por preconceito, cairão no limbo, mas que, fôssemos menos intolerantes, mereceria citações futuras - por décadas, talvez séculos. E eu, imbuída e dopada pela vontade de ajudar o caju, terminado o monumental encontro do Presidente com o caju, corri para fazer a minha camiseta: “Fora abacaxi! Agora sou caju!” Fiz logo duas: uma com “Fora Abacaxi” no peito, e “Agora sou caju” nas costas; outra com “Fora Abacaxi” nas costas, e “Agora sou caju” no peito.Por tudo isso, proponho que se crie mais um ministério: o do caju. Acho, de verdade, que só assim conseguiremos dar a devida atenção à fruta. Mas, como tudo nesse país é enrolado e demorado, talvez eu morra sem ver o ministério do caju em plena atividade. Paciência. Só espero que, assim que o primeiro ministro do caju for empossado, me seja feito o registro histórico.
quarta-feira, setembro 05, 2007
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2 comentários:
e o caqui?!
eu estou indignada!
Eles, caqui e caju poderiam dar as mãos e criar um movimento muito forte!
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