O Sócio
Íris chegou ao escritório de João Fagundes na manhã seguinte. A secretária a anunciou e conduziu a sala.
– Sente-se, por favor. – disse João – Aceita algo?
– Um copo de água, obrigada.
A secretária voltou rapidamente com a bebida e retirou-se.
– Suponho que venha me perguntar sobre o Mário, certo?
– Sim. A viúva me contratou para investigar o crime. Pelo que soube os senhores eram sócios há muitos anos, não?
– Nos conhecemos na faculdade. Abrimos a empresa logo depois da formatura. Éramos só nós dois na época. Crescemos consideravelmente.
– E perderam bastante dinheiro há pouco tempo.
– Ah, é. – ele meneou a cabeça – Acho que isso me coloca entre os suspeitos, né? O Mário fez uma bobagem. Investiu boa parte de nosso capital em ações não-confiáveis. Só descobri quando ele perdeu tudo. Fiquei furioso, claro, mas não o matei. Não seria muito inteligente da minha parte.
– Por quê?
– Ora, eu só tenho o que a empresa gera. Não guardei muito. Sou meio...exuberante. Acho que viu meu conversível lá embaixo, não? Pois bem, Mário ia cobrir o rombo. A mulher dele é podre de rica, sabe? É, acho que sabe, afinal, ela está te pagando. De qualquer forma, não foi a primeira e nem seria a última vez que ele perdia dinheiro.
– Ele fez investimentos ruins antes?
– Alguns. Não no começo. Ele costumava ter faro para a coisa, mas nos últimos dois anos, ele perdeu um bocado de grana. A mulher dele repôs todas as vezes. Só que desta vez ele exagerou. Perdemos quase meio milhão de reais.
– E ela ia cobrir um prejuízo tão alto?
– Ia. Ela deve ter isso só em jóias. Bom, como pode ver, não havia motivos para matá-lo, mas para mantê-lo vivo. Só espero que ela assuma a parte dele da empresa, senão estou no mato sem cachorro.
– E o que aconteceu na noite da morte?
– Ah, eu cheguei um pouco atrasado. Minha garota demorou um bocado para se arrumar. Eles estavam nos esperando para jantar, mas o clima estava tenso. Resolvi aliviar as coisas e contei um monte de piadas. Para alegrar a festa, sabe? O irmão do Mário não gostou muito. Ele é padre e metade do meu repertório é piada de padre. A outra metade é de sexo. O Mário rolava de rir da cara do irmão. Este até ia responder, mas a Camila pediu para ele não esquentar a cabeça comigo.
– E ele obedeceu?
– Como um cachorrinho. Sorriu para ela e disse que não faria nada para estragar o jantar dela. Se ele não fosse padre, eu ia achar que tem coisa ali, mas quem pulava a cerca era o Mário.
– Você conhecia a amante dele?
– Conhecia. Todos conheciam. Era a Marisa, ela estava lá. Toda sexy, provocando a Camila.
– Eles estavam juntos há muito tempo?
– Uns dois anos. No começo, ele escondia bem, mas começou a ficar desleixado nos últimos meses.
– Sabe o porquê?
– Não. Vai ver ia deixar a esposa. Falei para ele não fazer nenhuma bobagem antes da Camila cobrir o rombo da empresa, aí ele pega e leva a amante no jantar. Se eu fosse a Camila também tinha matado o bastardo.
– Então, você acha que foi ela?
– Sei que você está tentando provar que não, mas não vejo quem mais poderia ter feito isso. Na comida não tinha veneno, todo mundo comeu. E nem foi ela que cozinhou. Acho que foi no café, foi a única coisa que ela serviu um por um.
– Eu soube que o Mário havia brigado com um amigo. Sabe o motivo?
– Ah, é. O Sérgio apareceu por aqui berrando, batendo porta. Eu ouvi quando ele invadiu a sala do Mário e fui ver o que estava acontecendo. Ele ficava berrando sobre um dinheiro que o Mário devia. Aí, o Mário falou que pagava, apesar de não ter obrigação nenhuma e o cara sossegou.
– Que dinheiro era esse?
– O Mário me explicou depois que convencera o Sérgio a fazer o mesmo investimento que nós. Eles perderam uns 50 mil reais. Pouco perto da empresa. O que deixou o cara puto é que isso era tudo que ele e a mulher tinham. O Mário falou que pagava e tudo se resolveu. Apesar..não.
– Apesar do quê?
– Bom, talvez não seja nada, mas eu tava conversando com a Clara, mulher do Sérgio, e com minha namorada e o papo tava meio luluzinha demais. Então olhei em volta e vi o Sérgio tirando o café da mão do Mário e colocando sobre o piano. Mas ele não colocou nada dentro, tava muito ocupado cobrando o dinheiro.
– Onde estavam os outros?
– O padreco estava com eles. A Camila tinha ido até a cozinha. O Mário caiu morto pouco depois.
– Então, ela não estava na sala?
– Não, não estava.
– Mais uma coisa. Durante o jantar, você se lembra do que cada um bebeu?
– Lembro. Estávamos comendo carne por isso bebíamos vinho tinto, exceto a mulher do Sérgio. Ela bebia água, falou algo sobre remédios.
– Quem serviu o vinho?
– O próprio Mário. Ele adorava vinho, fez curso e tudo. Achei até estranho que ele aceitasse café. Ele tinha levado a taça para a sala. Será que foi o vinho que envenenaram?
– Acho difícil. Todas as taças foram examinadas. De qualquer forma, obrigada pelo seu tempo. Será que posso pegar o telefone e endereço de sua namorada?
– Claro e se quiser, pode dizer para a Paula que acabou entre a gente. Seria ótimo, eu poderia te convidar para jantar.
Íris sorriu por educação. – Acho que esse é um dever seu. – respondeu. Pegou os dados e saiu. Próxima parada: o irmão da vítima.
Elis (que já avisa que o texto é grande.)
Um comentário:
No gelo, no gelo, no gelo!!!!!!
Tava no gelo! hahahhaha
Lembrei da história do Mário!
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