O Padre
Íris chegou na igreja no final da missa. O padre distribuía hóstias aos fiéis. Íris aguardou até que todos saíssem e se aproximou. Era um homem jovem, alto e forte. Sua pele morena contrastava com os olhos claros.
– Posso ajudá-la, minha amiga? – perguntou o jovem padre.
– Espero que sim. Sou Íris Fogliatti e ...
– Ah, a escritora?
– Também. Estou investigando a morte de seu irmão a pedido da viúva.
– Eu realmente espero que consiga inocentar a pobre Camila.
– Então, acha que ela é inocente?
– Sim. Vamos conversar lá dentro, tenho uma salinha mais confortável. – e conduziu a detetive por um corredor lateral até um pequeno escritório.
– Pois bem, detetive. Em que posso ajudá-la?
– O que pode me dizer sobre o casamento de seu irmão?
– Meu irmão não era, como posso dizer, um marido ideal. Ele mantinha uma amante. Não sei se Camila sabia. Acho que não. Eu disse a ele muitas vezes que era errado o que estava fazendo, mas ele apenas respondia que eu não podia entender as necessidades da carne. O que não é verdade, não há casamento mais difícil que com a igreja.
– Então você sabia do caso de seu irmão? Por que não falou para a esposa?
– Eu ainda acredito nos laços matrimoniais senhorita. Não cabia a mim contar. Não trairia a confiança de meu irmão.
– Sim, entendo. Pode me contar como foi aquela noite, nos detalhes?
– Eu cheguei mais cedo. Aproveitei para ajudar Camila com os preparativos. Pouco depois o Mário chegou. Estava diferente.
– Diferente como?
– Tenso. Ele não costumava ficar preocupado com nada. Quando perguntei qual era o problema, apenas disse que era um problema nos negócios. Percebi que não queria continuar a conversa. Pouco depois das oito, um casal de amigos deles chegou. O marido foi bem rude com Mário. Sérgio, acho. A esposa era muito educada e parecia disposta a acalmar os ânimos. Então, chegou aquela mulher. A amante. Não pude acreditar. Ela parecia disposta a provocar. O tipo de mulher que destrói lares por prazer. O Mário não fez nada. A Camila tratou todo mundo normalmente. Tentei falar com meu irmão, trazer juízo para a cabeça dele, mas ele me disse que não era problema meu e que ia resolver tudo. Tentei perguntar se ia terminar com a amante, mas ele apenas me cortou. O sócio chegou atrasado, acompanhado por uma menina. Não gosto daquele homem, João, ele se diverte com o desconforto dos outros. O Jantar foi normal. Camila tentou manter uma conversa civilizada.
– Soube que ela evitou um confronto entre você e João Fagundes.
– Não ia ser um confronto. Eu ia responder às provocações dele, mas preferi me calar. Não era eu que estragaria a noite dela.
– Vocês se conhecem há muito tempo?
– Nos conhecemos, os três, quando adolescentes. Eu meio que servi de cupido para os dois. Arrependo-me agora. Mário poderia estar vivo e Camila...não teria sofrido tanto.
– O que aconteceu após o jantar?
– Fomos para a sala de estar onde Camila serviu o café. Tentei conversar com Mário novamente, mas o amigo dele se aproximou. Queria saber de dinheiro.
– O que Mário disse?
– Disse que o pagaria na segunda-feira e então caiu morto.
– Você imagina porque mataram seu irmão?
– Eu o amava muito, mas conhecia o homem que era. Mário não era muito ético, não só com a esposa. Imagino que alguns seres humanos vão a extremos por muitos motivos e Mário pode ter provocado algum. Contudo, não posso acusar ninguém, não quero correr o risco de difamar um inocente.
– Os motivos para assassinato não são muitos. No geral, são passionais, amor, ódio, etc. Ou por poder e dinheiro. Não há tanta variedade.
– Bom, dinheiro pode ter sido um fator. Mário era...bom..ganancioso.
– Notou mais alguma coisa na noite do jantar?
– A moça que estava com João parecia familiar, Mário também achou, mas não acho que seja um familiar ruim. Ele parecia mais preocupado com a amante.
– Por quê?
– Ela estava bem extrovertida. Ele deu algumas indiretas e o ouvi comentando com ela sobre estar perto do fim. Acho que ele ia deixá-la.
– Obrigada pela ajuda e sinto muito pela sua perda.
– Ah, sim. Espero que consiga inocentar Camila. Ela merece ser feliz.
O Casal
Íris encontrava-se numa sala simples, mas de bom gosto de um apartamento de classe média. Pela decoração podia perceber que os donos não tinham muito dinheiro, mas eram educados e até sofisticados dentro do padrão social a que pertenciam. O casal sentava-se num sofá a sua frente. O marido, Sérgio, estava claramente aborrecido. A esposa, Clara, compensava a aspereza do marido sendo cordial até demais. Suas mãos, porém, traiam o nervosismo contorcendo-se no colo.
– Olha – começou Sérgio – sei que está sendo paga para isso e tudo, mas não gosto de ser interrogado.
– Não estou aqui para interrogá-lo, apenas gostaria que me dessem suas versões dos fatos.
– Minha versão? Eu só me fudi com a morte daquele canalha.
– Por causa do dinheiro que ele devia ao senhor?
– É claro. Ele convenceu a Clara a entrar naquele negócio. Ele sabia que eu não aceitaria, por isso foi por trás das minhas costas e enganou minha esposa.
– Então foi a senhora que deu o dinheiro para o Mário?
– Foi. Eu não entendo muito de negócios, mas o Sérgio falava em investir e o Mário estava tão seguro. Foi uma bobagem minha.
– De qualquer forma, – continuou o marido – o canalha deveria ter falado comigo. Só que sabia que não ia conseguir me enrolar. Eu nunca tinha ouvido falar da tal empresa que ele investiu nosso dinheiro. Quando o confrontei, ele disse que pagava, mas ficou enrolando.
– Por isso o senhor o cobrou no jantar?
– Foi. Ele disse que pagava na segunda-feira, mas caiu morto em seguida e eu dancei.
– O que aconteceu naquela noite?
– Nós chegamos no horário – começou Clara – e o jantar correu bem. O João, o sócio do Mário, ficou fazendo graça. Bom, parecia tudo bem. Depois fomos para a sala de estar. Eu fiquei conversando com ele e aquela namorada dele, Paula, uma gracinha de garota. Um pouco nova, mas muito educada. Quando percebi, o Mário estava no chão.
– Não foi exatamente assim. – interrompeu o marido – A Camila serviu o café, o que é muito estranho, ela tem umas duas empregadas para isso. Quando nos afastamos da mesa de centro, fui atrás do Mário para falar do dinheiro. Ele tava conversando com o irmão sobre a amante. Eu interrompi e ele disse que me pagava. Comeu um sequilho e caiu morto.
– Desculpe, o senhor disse que ele comeu algo?
– Ah, só um biscoito. Tinha vários na bandeja do café. Não devia estar envenenado, pois eu também comi. Só que um de aveia.
– E o café foi servido numa bandeja?
– Foi, – respondeu Clara – mas a Camila que encheu as xícaras. Mas, é, todo mundo tava perto da mesinha antes. Talvez outra pessoa tenha posto o veneno na xícara antes. Ah, não, né? A polícia não achou veneno nelas. Desculpe.
– Tudo bem. O fato da polícia não ter achado dentro da xícara, não significa que não estivesse lá.
– Ah?
– Desculpe, pensei em voz alta. – disse Íris. – Vocês notaram mais alguma coisa?
– Aquela mulher, a Marisa, – hesitou Clara – bom, ela meio que ficou seguindo a Camila durante toda a noite. Quando a Camila saiu para levar o café para a cozinha, a Marisa falou alguma coisa para a coitadinha. Não ouvi direito, mas era sobre o Mário. Ele morreu pouco depois.
– Eu agradeço a cooperação de vocês e desculpem incomodar.
– Não foi nada. – respondeu a mulher.
– Só uma coisa. – disse Sérgio – A senhora não tinha deixado de trabalhar com investigação?
– Sim, mas resolvi fazer um favor a um amigo.
– Por que foi que parou?
– Ah, eu já conhecia o suficiente o ser humano.
– Mas tinha um caso que terminou mal, não?
– Sérgio! – sussurrou a esposa.
– Se ela pode vir aqui e nos perguntar coisas, nós também podemos.
– Sim, houve um caso cujo desfecho não foi...feliz. – respondeu Íris e saiu. Não queria pensar no passado agora, não podia pensar no passado.
Elis (falta pouco!)
2 comentários:
Foi o mordomo....
É sempre ele....
meu deus Elis... nao to conseguindo ler td por aki =/
vc pode me mandar por email?
=***
Gi
Postar um comentário