sexta-feira, agosto 17, 2007

Em memória

*Melhor lido ao som de Hope There's Someone - Antony and the Johnsons*

Ele olhava para o telefone. Só. Havia algum tempo que não conseguia tirar os olhos daquele aparelho e, em alguns momentos, ocorria-lhe a esvoaçante pergunta: por quanto tempo mais?

Com os dedos estranhos, repassava a agenda do aparelhinho levemente destruído só mais uma vezinha... só mais uma vez. Tentava convencer-se de que não tinham culpa. Não tinham! TINHAM! Só podiam ter! Cúmplices?

A indiferença de cada um daqueles números berrava e o barulho caótico deixava-lhe duas opções. Eram eles ou ele.

No fundo queria que confirmassem, que lhe dissessem que não estava louco; que não exagerava: que sentiam muito, mesmo. Mas tudo isso acabou vestindo-se de um desesperódio acéfalo.

Já tinha perdido a noção, todas as noções, e precisava fazer alguma coisa. Foi nesse ponto em que, exaurido o suficiente para ter um cheiro coragem, discou. Um número após o outro, o outro, o outro. Só que todas essas vezes a única tradução que encontrava não era exatamente compreensível: gritava e chorava e babava até que, finalmente, tu, tu, tu.

Todas as perguntas mais racionais do mundo não faziam sentido. Será que eles não percebiam? De que adianta perguntar qual era o seu problema? Não era óbvio? Ele sabia que não, mas sufocava. Mesmo assim, sufocava. Queria que percebessem sem ter que explicar, porque colocar em palavras era inacessível, mas ainda precisava de respostas (de consolo!) (de vingança!).

E agora, sem respostas? Em posição fetal misturou embriões de pensamentos, num turbilhão de mortenovoAntonioódiojustiçadorfamíliamudançatristezameninomotosbuzinasterrorsangueEimobilidade. Nisso tudo distinguia a silhueta de uma idéia melhor formada: até quando todos aqueles números tão racionais permaneceriam tão, tão...

4 comentários:

Unknown disse...

Uma história: Um menino é atropelado por um motoqueiro passando no sinal vermelho e morre. Tinha apenas 15 anos. Seu irmão mais velho, desesperado, pega o celular do menino e começa a discar para todos os números. Grita e chora por algum tempo até que as pessoas desliguem. A polícia foi chamada para resolver o "trote".

Elis disse...

Gi,
vc conseguiu traduzir em palavras todo o desespero da situação, sem deixá-la óbvia. Adorei.

Unknown disse...

Muito obrigada Elis, mesmo.

Zine Qua Non disse...

Nossa, que confusão!
minha cabeça ficou percorrendo inúmeros cantos até achar o sentido da história toda.
Adorei!!!