A Amante
Íris caminhou pelo jardim de entrada de um casarão tradicional do Pacaembu. Ao chegar na porta, uma senhora de uniforme a recebeu e informou que Marisa a receberia num minuto. Íris sentou-se numa poltrona ao lado da lareira e esperou. Pouco depois, uma mulher alta e loira entrou na sala. Vestia-se muito formalmente para alguém que estava em casa o dia todo. Ela sentou-se numa cadeira de veludo à frente de Íris.
– Que honra a minha receber uma escritora barra detetive na minha humilde casa. – ela brincou. – Imagino que veio encontrar uma forma de culpar a amante pelo assassinato.
– Não procuro culpar ninguém além do próprio assassino. Se isso for uma admissão de culpa...
– Oh, não, não. Por que eu mataria o homem que amava e que ia deixar a esposa por mim?
– Então, ele pretendia deixar a esposa? E o dinheiro?
– Estava tudo preparado. Mário tinha um dinheiro próprio que guardara para isso. Nós íamos nos mudar para os Estados Unidos e viver felizes para sempre.
– Não foi o que soube. Pelo que descobri, Mário perdera uma boa quantidade de dinheiro nos últimos tempos.
– Ele não perdeu esse dinheiro, ele desviou. Não adianta ficar guardando segredo. A conta está no nome dele e será toda revertida para a esposa. Não fiquei com homem ou dinheiro. Ele falsificava uns investimentos e depois fazia a mulherzinha cobrir o falso prejuízo. Era um bom esquema. Da última vez, ele pegou uma quantia alta, que a Camila não ia cobrir, mas não tinha problema. Quando descobrissem, nós já estaríamos longe. Ele ia embora depois do jantar, as passagens eram para a manhã seguinte. Só que ela o matou antes.
– Pode me dizer o que aconteceu naquela noite?
– Para começar, aquele chato do João estragou minha entrada triunfal. Eu tinha planejado chegar por último só para assistir a Camila descer do salto na frente de todos. E durante o jantar os olhares estavam todos voltados para o padre e João. Foi bastante tedioso. Quando levantamos para ir para a sala, Camila disse que ia pedir o café. Fui atrás dela, só para provocar. Disse que queria conhecer a cozinha dela e fiquei dando umas indiretas, mas ela não reagia. Quando chegamos na cozinha, as empregadas que estavam comendo levantaram para pegar o café. Mas a Camila disse que não precisava, que ela mesma levava e que era para as duas continuarem o jantar. Na hora, achei que era só pose de boazinha dela. Ela até me fez carregar os biscoitos, como se eu fosse uma serviçal. Depois eu percebi que era para matar o Mário. Pensar que podia ser eu. Na sala, ela serviu todo mundo, mas não saí do lado dela. Estava disposta a quebrar a pose da perua. Ela disse que ia devolver a bandeja e preferi não acompanhar, vai que ela resolve me fazer de ajudante de novo. Aí, fui conversar com a Clara e a menina do João. Meio carola demais, só falava da igreja e tal. Percebi na hora que o João não ia longe com aquela ali. Então, o Mário caiu morto. Foi horrível.
– Notou mais alguma coisa antes disso?
– Não, além do que, a Camila é a que tinha mais motivo. Precisava ver a cara dela quando voltou da cozinha e viu o marido no chão. Não chorou, nem deu um piu. Ficou lá, parada, olhando o corpo.
– E você chorou?
– Claro que sim. Ele estava morto, não havia motivo para esconder minha dor. Precisaram me dar um calmante antes de voltar para casa. Pensando agora, vai ver que ela tinha envenenado meu café também. Ainda bem que não bebi. Não deu tempo.
– Mas parece que já superou a perda.
– Ah, a fria amante interesseira, né? Ainda sinto falta dele se quer saber, mas a vida continua, não?
– Além de você e do Mário, mais alguém sabia dos planos de vocês?
– Não. Vai ver que a esposinha descobriu, mas que eu saiba, ninguém sabia. O intrometido do irmão dele ficava espiando a gente, mas não ouviu nada. É meio óbvio que foi ela. Além dela, os únicos que tinham motivo eram os que foram lesados pelo esquema do Mário, mas o João é um besta e aquele outro, o Sérgio, não é refinado o suficiente para envenenar alguém. Eu li em algum lugar que veneno é a arma preferida das mulheres.
– Nem sempre o assassino é o mais óbvio. Nem todos têm o sangue frio necessário.
– E você acha que eu tenho?
– Talvez, mas ainda tenho outros a entrevistar. Não tiro conclusões precipitadas.
A Namorada do Sócio
Íris tocou a campainha do pequeno sobrado. Uma voz respondeu de dentro e abriu a porta em seguida. Era uma garota de vinte e poucos anos. Vestia jeans e camiseta. Seus longos cabelos pretos estavam presos num rabo e ela parecia ofegante.
– Sim?
– Olá. Meu nome é Íris Fogliatti. Liguei para avisar que vinha.
– Sim, claro, entre. – respondeu a garota. – eu estava dando uma geral na casa. Não é sempre que recebemos pessoas famosas. Eu e minha mãe somos bem simples, sabe?
Íris foi conduzida para uma pequena sala, cheia de bibelôs e toalhas de crochê. A garota indicou o sofá.
– Obrigada. Eu gostaria de saber o que você se lembra da noite do assassinato?
– Ah, eu estava meio nervosa, sabe? Eu nunca tinha ido numa casa tão fina. E fazia anos que não via o padre Carlos.
– Desculpe, você já conhecia o padre Carlos?
– Já, ele, o irmão e a Camila, mas eles não lembram de mim. Eu era uma menina e nós éramos da mesma paróquia. Eu tinha uma admiração enorme por eles. Andavam sempre juntos. Mas depois que a Camila e Mário casaram e o padre Carlos se ordenou, eles não voltaram mais para a igreja. Então, quando o João me convidou para ir ao jantar com ele, fiquei excitadíssima. Queria ter falado com o padre antes do que aconteceu.
– E como foi à noite? Desde o começo.
– O João chegou atrasado aqui. Eu já estava esperando há um tempão, mas ele disse que eles não iam se importar e tal. Quando chegamos, todos foram muito amáveis comigo, principalmente a Clara. Muito meiga. Bom, nós jantamos. Comida fina, vinho caro. O Mário ficou falando do vinho, mas não entendi nada. Aí o João começou a contar umas piadas de mau gosto para o pobre padre. Ele deve estar arrasado. O irmão morreu e a melhor amiga sendo acusada!
– Melhor amiga?
– É, eles dois eram inseparáveis na igreja. Bom, então fomos para a sala. A Camila trouxe o café numa linda bandeja de prata, sei que era prata porque a Clara ficou encantada e perguntou. Ela até segurou a bandeja. Mas a Camila precisava servir, então ela devolveu. Tinha uns biscoitinhos também, de aveia. Desses fibrosos, sabe? Não gosto muito. Então fiquei conversando com a Clara e quando vi, o Mário estava morto.
– O que pode me dizer do clima entre os convidados?
– O João tava mais palhaço que o costume, parecia disposto a chamar toda a atenção. Aquela moça, a Marisa, só ficava perto da Camila. O João me disse que ela era amante do Mário. Se for verdade, então ela é muito estranha, pois não desgrudava da Camila. Perguntava como ela estava, se estava feliz, comentava sobre ela precisar de férias e tudo mais. O marido da Clara estava bastante aborrecido e o padre estava meio sério, mas sorria de vez em quando. Sinceramente, não sei se posso ajudar. Não conhecia realmente nenhum deles.
– A visão externa pode trazer mais luz do que se imagina. O que mais você notou?
– Nada mesmo. O Mário parecia meio ausente, ele se distraia fácil, sabe? Fiquei pensando como ele pode ter sido envenenado e não cheguei à conclusão nenhuma. Todos comeram a mesma coisa, todos tomaram café, vários comeram o biscoito e não lembro do seu Mário pegar um.
– Tem certeza que ele não pegou?
– Tenho, ele pegou só café.
– E a reação dos convidados depois que ele morreu?
– Ah, a tal Marisa berrava e se descabelava. A Camila parecia em choque, acho que não disse uma palavra. O padre Carlos que cuidou dela e ele estava visivelmente abalado. Ele perguntou se ela estava bem e ela só acenou com a cabeça. Ele achou melhor levá-la para dentro até a polícia chegar. A Clara estava branca, o marido dela só olhava para o corpo e murmurava algo como “não pode ser verdade”. O João ficou sério pela primeira vez. Foi ele que chamou a ambulância e a polícia. Eu meio que não acreditava. Fiquei quieta e esperei. Depois que polícia nos liberou, o João me trouxe para casa. Não falou nada o caminho todo, só que teria muito trabalho e que não sabia quando poderia me ligar. É claro que eu sabia que ele não ia ligar mais. O canalha achou que eu fosse fácil e a noite foi chocante demais para qualquer coisa.
Íris agora tinha entrevistado todos os presentes, mas algo ainda a incomodava. Era hora de voltar à viúva.
Elis (estamos quase lá)


