Resolvi publicar aqui uma brincadeira do meu colegial bastante interessante. Se eu pudesse viajar no tempo e fazer uma entrevista com alguém? No colegial escolhi Lord Byron, figura magnífica da literatura e de todos os tempos. Fiz uma pesquisa e imaginei suas respostas. E vocês? Quem entrevistariam? Como imaginam as respostas?
E: O senhor nem sempre foi um Lord. O que guarda de sua infância, antes de herdar o título e as terras?
LB: Quando nasci a "Douairiére", como eu chamava a Sra. minha mãe, estava sem nada. Meu pai não a aguentava, provavelmente. Assim são as mulheres: quando apaixonadas tornam-se insuportáveis. Porém, em minha infância as principais lembranças são de minha Babá. Ela lia a Bíblia e me ensinava que o pecado está dentro de todo homem, principalmente eu. Ajudava, também, a condenar minha pequena alma. Com a morte de Lord Mau, meu tio-avô, herdei uma renda, porém ele tinha destruído quase todo patrimônio. Quando fomos ver Newstead, minha maior dor foi deixar Mary Duff, uma menina que arrebatara meu coração. Mas lembro de minha falecida prima e sua pureza. Não foi fácil para um aleijado conquistar seus corações, quando não tinha um nome.
E: O senhor era muito precoce. Uma paixão de adolescência que te transformou num destruidor de corações femininos?
LB: A paixão que se refere é Mary-Ann, quando eu tinha quinze anos. Aquele amor me mostrou como é perigoso entregar-se. Não me tornou um conquistador. Isso é dito por mulheres sentimentais que são incapazes de amar sem enlouquecer. São uma raça absurda, governada por ciúme e sentimentalismo. Como pode, eu apenas por ser poeta e agradar-lhes quando lêem, ser objeto de devoção. Sei que sou ligeiramente belo, mas não esqueço que sou coxo.
E: Os crâneos fazem boas taças?
LB: As melhores. Honramos aquele que morreu ao bebermos nele. Até a morte é um baile. Os monges sentem falta de seus vinhos mesmos mortos. E ao bebermos na morte, em celebração a vida, lembramos que nos resta pouco tempo. Ora, por que não beber em crâneos? Esse é mais um pudor sem sentido. O que chamam de excentricidade, chamo de consciência. Shelley diria que não importa, não há o que temer de algo que acabou. Acho que há e por isso deve ser feito. Nos damos o direito de ofender os que ficaram. Pois não é o morto que nos condenará.
E: Childe Harold começou a ser escrito em 1810. Porém, Milord não acreditou no sucesso ou preciosidade da obra. Muitas vezes dita autobiográfica, isso seria um sintoma de descrença em si?
LB: Há! Adoraria, realmente adoraria que eu fosse um herói. Acho que às vezes o sou. Afinal essa minha decisão de ir lutar na Grécia envolve um pouco desse herói. Sim, não sou tentado a acreditar que as pessoas queiram ler algo produzido por um anjo caido. Mas elas queriam, afinal, acordei famoso. Não achava que algo tão pessoal, mas oa mesmo tempo tão fictício pudesse fazer sucesso. Sou narciso, mas sou muito autocrítico.
E: Sua primeira peregrinação deve ter despertado grandes sentimentos. O que pode falar sobre ela?
LB: Na verdade, foram grandes descobertas. Sobre mim, principalmente. O meu caráter é muito solitário e viajei com meu amigo Hobhouse. Ele foi um ótimo companheiro, mas depois de um ano, percebi que queria ficar sozinho. E consegui. É extraodinário como o mundo recebe-nos. As grandes obras, as boas pessoas e o bom é raro mais quando aparece tem um efeito alucinante. Contudo, a viagem foi proveitosa pois nem só de maravilhas é feita a realidade. Aliás, ela é uma grande maçã podre, que em certo pontos sobrou frescor.
E: Os Cantos III e IV de Childe Harold diferenciam-se dos anteriores não apenas pela época em que foi publicado, mas pelo conteúdo. Como explica sua mudança?
LB: Leituras, eestado de espírito, não sei. No III convivia com Shelley e ele convenceu-me a ler Wordsworth. Conversavámos muito sobre assuntos que não me instigavam tanto, antes, como metafísica. Ao ver o amor panteísta de Shelley e discutir toda minha crença, refleti na peregrinação de Childe. No canto IV, estava mais maduro e em local perfeito para enxergar toda a grandeza de certas coisas e insignificância da maior parte: Roma.
E: Essa procura metafísica aparece em seu Manfred, porém com todo um sistema próprio, até difícil de entender-se, o que afinal é o Mal e o Pecado para Byron?
LB: É o próprio Byron. Eu sou aquele que me conduz a tentação, mas sou também o corrompido e mais tarde, serei a punição. Existir é combater um conflito interno. Quando nos condenamos ao infernos, o fazemos por opção ou destino? Não sei, creio que sou Caim. Pequei, fui condenado, aceito a punição, mas não admito meu erro. Acho que gosto de perceber que faço tudo que é condenado. Bem, nem tudo. Excita-me e torna minha vida mais interessante a existência do Mal. Mas a dor aguda de tê-lo provoca uma dualidade que me empurra. Não posso parar. Odeio rotinas e envolvome nos piores casos. Ou mais patéticos, como Caroline.
E: E o que é a sociedade?
LB: É a hipocrisia. Por que tal serpente foi criada? As imagens honradas, os cavalheiros e as senhoras com suas filhas falsamente puras. Nasceram apenas para julgar e condenar qualquer coisa que ofenda seu patético pudor. Na sociedade italiana algumas dessas hipocrisias foram amenizadas, mas se algo com o incesto ocorre a reação será a mesma. Não que tenha ocorrido em Lodres...
E: Recebi o aviso de que o senhor encara a vida de modo fatalista e negativo. Por quê?
LB: Há como não ver a vida assim? Uma sociedade dessa, um destino que persegue aqueles que amo, um Deus cruel e uma série de maldades dominando as pessoas, faz com que perceba-se o fim trágico da humanidade. E, também, o prazer em prejudicar-se e provocar o pior final. A paixão, a entrega, a bondade, o heroísmo, os grandes romances e finais felizes ficam para os livros. Os ruins, lidos pelos que não conseguem conviver com a realidade mórbida.
E: O senhor foi grande amigo de Shelley e, segundo alguns, amante dele. É verdade?
LB: Eu o amava, e como todos aqueles que amei, morreu. Se era meu amante, não convém dizer. Mas Mary Shelley adorava gastar suas noites escrevendo seu romance sobre um monstro. Percy foi o melhor dos homens e se fosse amar algum, ele seria o principal. Mas a vida é tão diversificada e o amor tão espontâneo.
A morte dele levou-me ao vazio. Sua última viagem ao mar talvez o tenha levado pois, como todos que o conheciam, o mar não podia abrir mão dele. O queria só e completamente, tirando-o do mundo.
E: O escultor Thorwaldsen fez sua imagem, contudo, segundo ele o retrato foi-lhe decepcionante, por quê?
LB: Não sou eu. Sou mais triste. É como se fosse Conrad (de "O Corsário"). Sei que as vezes me torno outro, mas qual a graça da vida se não podemos ultrapassar nosso caráter.
E: Por que o senhor pretende arriscar sua vida por um país que não é sua pátria?
LB: A Grécia foi e sempre será maravilhosa. Terra de grandes, considero uma vergonha vê-la sujeitar-se a outro povo. Ela merece sua liberdade. Seja em nome do passado, de seu belo povo ou na possibilidade do futuro, essa musa não pode ser maculada. A paixão da poesia, da arte e do pensamento nasceu grega. Se há um modo heróico e honrado de morrer é lutando por tal causa.
Elis