A Viúva novamente
Íris finalmente examinava o local do crime, auxiliada pelo relatório da polícia, ela tentava visualizar o que aconteceu. A sala era ampla e bem decorada. Camila indicou o local onde seu marido morrera, perto do belíssimo piano de cauda alemão.
– Eu sempre falava para ele não colocar copos ou xícaras no piano, mas ele não me ouvia. Vê? A marca da xícara ainda está aqui.
– Camila, você não foi completamente sincera comigo. Por que me disse que cozinhara se tem duas empregadas para cozinhar e servir?
– Foi uma expressão. Eu escolhi o menu, supervisionei os preparativos. De qualquer forma, a polícia acha que eu teria mais oportunidades para envenená-lo.
– Por que serviu o café pessoalmente?
– A Marisa ficava andando atrás de mim, dando indiretas. Não conseguia pensar direito. Quando cheguei na cozinha, com ela no meu pé, as empregadas estavam jantando. Não quis atrapalhar e queria sair de perto daquela mulher o mais rápido possível. Precisa ver a cara dela quando pedi para levar os biscoitos.
– Mário comeu algum biscoito?
– Oh, você acha que ela...? Não, ele não comeu, Mário não gostava de biscoitos de aveia.
– Só havia biscoitos de aveia?
– Sim, olhe. – Camila estendeu uma tigela de cristal para Íris cheia de biscoitos. – Eu estava lá, ele não pegou.
– Outra coisa, o João me disse que você cobria constantemente os prejuízos de Mário na empresa.
– Sim, quando não passava de vinte, trinta mil. Mas Mário sabia que eu não ia cobrir meio milhão. Ele nem ao menos pediu. Além disso, não era algo constante, aconteceu umas quatro vezes nos últimos dois anos.
– Pelo que descobri, aconteceu mais que quatro vezes.
– Então não sei como ele cobriu. Pode checar minha movimentação financeira.
– Alguma jóia sua sumiu nos últimos dois anos?
– Por que está perguntando isso?
– Mário não perdia o dinheiro, ele desviava, você não desconfiava?
– Não. Nunca pensei que ele pudesse fazer algo ilegal e não acompanhava as transações de negócios dele.
– Vocês se conheceram na adolescência, certo?
– Sim, eu e o Carlos éramos amigos de escola e comecei a freqüentar a igreja deles. Foi quando me apaixonei pelo Mário. Nos chamavam de os três mosqueteiros, sempre juntos. Pena que Carlos só se ordenou depois do casamento. Eu realmente queria que ele tivesse feito a cerimônia.
– Hum. O que Marisa lhe disse antes que você voltasse para a cozinha?
– Ela disse que muitas vezes os maridos escapam durante a noite. Ela foi tão direta que tive que ficar na cozinha me controlando por uns cinco minutos. Eu estava à beira das lágrimas. Então, ouvi um berro e corri para a sala. Foi quando vi o Mário. Não pude acreditar.
– Sinto muito, mas tenho que lhe pedir um favor. Nós vamos organizar um novo jantar para os mesmos convidados. Dessa vez, não teremos um assassinato, mas sim o assassino.
Todos os convidados pareciam incomodados. Exceto pela garota Paula, muito excitada com toda a situação e pela própria Íris. Esta permanecia calada com um leve sorriso no rosto. Além dos convidados presentes na noite do crime, um inspetor da polícia e dois policiais participavam da reunião. Íris começou a falar:
– Creio que ninguém esteja interessado em jantar. Por isso, vamos nos acomodar na sala de estar e eu revelarei o assassino.
Todos se dirigiram para a sala. Paula exclamava que se sentia num romance policial. Íris observou cada um dos presentes enquanto se acomodavam na sala.
– Creio que todos aqui, exceto Paula, tinham motivos para matar Mário Soares. – recomeçou Íris. – Porém, apenas um tomou uma atitude.
Íris caminhava pela sala, olhando cada um dos rostos presentes, garantindo a atenção de todos.
– O grande mistério desse caso não estava em porque o Sr. Soares foi morto, mas sim em como. E neste “como” estaria a identidade do assassino. A polícia fez um ótimo trabalho de perícia e confirmou a ausência de veneno na comida, no vinho ou café. Porém, como eu disse para a Sra. Clara, isso não quer dizer que não estava lá. Há muitas formas de disfarçar um veneno. Então, o Sr. Sérgio disse que Mário havia comido um biscoito antes de morrer. Confirmei com o legista e a quantidade de arsênico administrada o mataria quase que instantaneamente. Ora, então seria o biscoito a forma. Contudo, duas testemunhas diferentes disseram que Mário não pegara qualquer biscoito da tigela.
– Mas eu o vi comer um. – exclamou Sérgio.
– Não duvido. Voltemos ao motivo. A esposa descobrira a traição do marido. Poderia facilmente tê-lo envenenado. Ele a deixaria naquela noite, como percebeu com a provocação mais que direta de Marisa. Ora, também descobri que a Sra. Camila sabia que algumas de suas jóias foram roubadas e deve ter desconfiado do marido, pois não deu parte a polícia. – virando-se para Camila – Conversei com sua empregada. Sabendo que o marido não gostava de biscoito de aveias, poderia tê-lo dado um sequilho.
– Não fiz isso. – exclamou Camila.
–Não, realmente não fez. Percebem que envenenar um sequilho indicaria premeditação? Camila só descobriu que Mário a deixaria na noite do crime. Por isso ficou chorando na cozinha. Não, o criminoso planejou com cuidado. Então, – disse Íris voltando-se para João – o sócio poderia ter feito tal coisa. Ele percebera que Mário estava desviando dinheiro da empresa e descobrira que Camila não pagaria o prejuízo altíssimo do último roubo. Se Mário escapasse, João perderia tudo. Agora, se ele morresse, a esposa herdaria a empresa e poderia salvá-la.
– Eu não sabia que ele estava me roubando! Achava que Camila pagaria sim.– bravejou João.
– Sérgio, igualmente poderia ter matado Mário. Ele estava enfurecido com o amigo por tê-lo roubado. Assim, como sua esposa também poderia. Clara até mesmo segurou o pote de biscoitos. Ela estaria corrigindo o erro de entregar a Mário o dinheiro.
– Não. Isso não traria o dinheiro de volta. – choramingou Clara.
– Ah, mas a vingança é algo muito forte e sedutor. Isso também poderia ter motivado Marisa. Pesquisei a história das passagens aéreas. Mário realmente comprara uma passagem para o exterior, mas para a Suíça, não Estados Unidos. E comprara um único bilhete para aquela madrugada. O padre Carlos disse ter ouvido algo sobre “estar perto do fim”. Contudo, não eram essas as exatas palavras. Mário tinha dispensado a amante e fugiria só com o dinheiro.
– É verdade. O desgraçado me passou para trás, mas não o matei. Também só fiquei sabendo naquela noite. – respondeu Marisa, sem se alterar.
– Não, realmente não o matou. Mário era uma pessoa inescrupulosa. Ele passara todos para trás. Enganara quase todos os amigos, esposa e amante. E alguém resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Justiça divina, não, padre Carlos? – falou Íris virando-se para o padre. – Os senhores foram criados num ambiente bastante religioso. Mário confessava-se com o senhor, não é mesmo?
– Sim, mas eu não podia contar para ninguém, nem para a polícia, nem para Camila. Uma confissão é sagrada. – respondeu o padre.
– Mas por quê? Carlos, por que você matou seu próprio irmão? – Exclamou Camila.
– Por sua causa Camila. – respondeu Íris. – Creio que o padre aqui é apaixonado por você há muitos anos. Ele se ordenou apenas depois do seu casamento. Provavelmente porque viu que não teria mais chance com você.
– Mas como? Como foi que ele matou Mário? – perguntou Marisa.
– Ah, como eu disse, a resposta estava no como. Sérgio disse que Mário comera um sequilho. Um biscoito branco. Creio que o Sr. Sérgio não é de formação católica, certo?
Sérgio acenou com a cabeça.
– Pois bem. Fiquei remoendo esse biscoito. Então me lembrei de quando fui entrevistar o padre Carlos. Ele estava entregando hóstias aos fiéis, tiradas de uma pequena caixinha que carrega consigo. A hóstia é um pequeno biscoito de farinha, branco como um sequilho, que representa o corpo de Cristo. Facilmente confundido por alguém que não conhece. Carlos provavelmente ofereceu a hóstia para o irmão como um gesto de redenção por tudo que estava fazendo. Mário devia sentir alguma culpa religiosa e aceitou o gesto de boa vontade. Contudo, foi no exato momento em que os dois foram abordados por Sérgio. Mário respondeu ao amigo e comeu a hóstia. Carlos havia preparado a hóstia previamente, colocando uma grande quantidade de arsênico. Ele sabia que Camila não seria condenada sem provas. E só existiam provas circunstanciais contra ela. Acho que planejava consolá-la, não?
– Ele merecia. – exclamou o padre. – Deus sabe que o que fiz foi justiça. Não podia deixá-lo escapar. Então o matei, exatamente como disse. Ele tratava Camila como lixo e ela não merecia isso.
– Contudo, o senhor não é Deus e não pode tomar uma decisão como essa. Creio que meu trabalho está feito e agora cabe a justiça humana processá-lo. A justiça de Deus você terá depois, se realmente existir.
Elis (acho que assassinatos ficam com Agatha Christie)
3 comentários:
Elis, deixei pra comentar no final de tudo.
Amei a história, muito boa mesmo, a gente lê e fica querendo saber o que vai acontecer na parte seguinte.
Tá super bem escrito, a leitura flui com facilidade, coisa que é muito difícil de conseguir.
Mas eu sou suspeita pra falar, porque esse é um dos meus estilos preferidos.
Parabéns, ficou ótimo!
eu não botava nenhuma fé de que o padre fosse o assassino...
Lá em cima do piano tinha um copo de veneno, quem bebeu mooorreu, o azar foi seeeeu
hahahahahaha
jurava que estava no café oooou no gelooooooooo
hahhahaha
bjo!
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