Uma experiência sem igual: ser obrigada a fazer um trabalho voluntário. A contradição está no título. A única forma que encontro para escrever esse relato é o tom crítico e a experiência comparativa. Entre os anos de 1998 e 2000 participei de diversos projetos solidários. Fazia parte do grêmio da Escola Logos e muitos dos projetos eram desenvolvidos por nós. Outros, como o projeto dos mosaicos, eram parcerias antigas da escola.
Naqueles dias, crianças carentes passavam um sábado por mês na escola aprendendo a criar beleza com cascalhos. Parece pouco? Não era um projeto que apenas divertia as crianças. Ensinava a arte e um caminho diferente a elas. A nós, ensinava a diferença entre assistencialismo e aprendizado. Aprendíamos, nós crianças privilegiadas, que a arte abre horizontes a todos. Que aprender não é algo garantido e víamos nos olhos sedentos por beleza daquelas crianças que seus pequenos mundos cinzas ganhavam cores e possibilidades. Esse ano me vi na situação incômoda de ter pouco tempo para achar um projeto e participar. Pior, sem qualquer envolvimento real com o trabalho. Contudo, nota é nota e fui atrás.
O trabalho do sopão da Igreja São Domingos é apenas assistencialista. Há um grupo de mulheres que pretende mudar isso, mas seus esforços ainda são insipientes. Por enquanto, batatas são descascadas e pessoas carentes servidas sem qualquer real envolvimento em suas vidas. Apenas as alimentamos. O esforço dos participantes é admirável. Algumas mulheres tentam ajudar de outras formas. Contudo, o caminho é longo para elas ainda. É claro que aquele alimento é importante. Somos capazes de ver nos olhos daqueles sem-tetos que o sopão é um dos poucos momentos de conforto em suas vidas. Um pouco de calor e nutrientes.
Enquanto, antes eu havia participado de trabalhos que tentavam “ensinar a pescar”, dessa vez apenas “dei o peixe”. A realidade do trabalho voluntário no Brasil é algo que não foi apresentado a nós antes desse relato e espero que seja estudado após a entrega. Não apenas as diferenças entre os projetos assistencialistas e os que tentam ensinar e integrar pessoas carentes, mas o fato de que sobram voluntários para projetos com crianças com câncer e faltam voluntários em asilos e projetos educacionais.
A grande questão do trabalho: irei voltar? Não a esse projeto. Ao lembrar de meus tempos de grêmio senti saudades do voluntariado, mas também pensei em todos que, ao contrário de mim, não tinham experiências anteriores com trabalhos solidários. Será que voltarão mesmo? Talvez digam em seus trabalhos que sim, mas irão mesmo?
Elis (postando o trabalho do JC que entregarei amanhã)
PS: no final do trabalho coloquei um poema que está no meu blog.
9 comentários:
Essa experiência só me ensinou que o JC é uma piada de péssimo gosto.
pois é Elis... como sempre uma crítica construtiva suuuuper bem escrita =) Sempre bom ler o que você escreve!
Eu seria um pouco mais radical hehehe mas sabe como eu sou esquentada né hehehe
mas tá realmente ótimo! Dizendo tudo que todos nós queríamos dizer!
=**
Realmente, trabalho voluntário obrigatório e com data marcada não está certo!
E eu achando que só eu tinha detestado a idéia... Falou muito bem, Elis.
genial, elis...assino embaixo de tudo o que tá escrito.
Apesar de concordar que é um absurdo fazer trabalho voluntário obrigatório, para mim acabou sendo uma boa... fui doar sangue e gostei da experiência. Mas sei q nem pra td mundo foi legal.
meu sonho é doar sangue =/ não posso =( =( =(
nossa..elis...apóio vc totalmente.
de fato, fiquei muito desconfortável em ter que "caçar" uma instituição e, depois, "fazer o trabalho".~confesso que participei de poucos projetos do tipo; eles foram realizados pela escola onde eu estudava. E tb confesso que muitas vezes nós, os alunos da época, fazíamos por insistência de professores, mas nunca por um nota.
penso que JC quer avaliar o texto, o que há de jornalístico nisso tudo. até ai, tudo bem. mas apenas isso. oras, se a babi realmente queria ajudar os animais, que ele, jc, deixasse! como vc disse, é estranho mesmo ter de ser voluntário obrigatóriamente.
a idéia de nos encorajar a fazer esse tipo de coisa é bem vinda, mas que fosse encarado como uma experiência, a qual depois apenas passaríamos para os colegas de sala, e não um trabalho, uma tarefa.
ainda não sei aonde ir...solidariedade tem que estar em todo lugar, no cotidiano...ser solidário é da pessoa, não se é solidário somente em um seminário.
é isso.
O JC pensa que somos estudantes do ginásio e devemos entrar em contato com diferentes realidades, mas que SÓ ele tem esse caminho e pode nos ensinar!
Arrrhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, mto péssimo!
"Não há experiência de alteridade sem compreensão da realidade" e ele quer nos forçar a isso...
Ótimo texto, Elis!
O que ele quis dizer com "generosa" que ele escreveu ao lado da minha nota!
ODEIO ELE!!!
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